Escoural.
Meia dúzia de corpos
na soleira de um portal.
Caras rugosas
cascas grossas de sobreiro
feriado
cavaqueado o dia inteiro.
Todos os dias do ano
há meia dúzia de corpos
sombras dormitando
cavaqueando
ou vivendo por engano.
Meia dúzia
caras gretadas
rugas que vão e rugas que vêm
silêncios de recordações
olhos perdidos onde elas se lêem.
Um,
casaco grosso peito descoberto
olha a curva do caminho bem perto.
Espera alguém?
Quem sabe?
Na curva do caminho não há nada, porém.
Outro,
primo afastado de Catarina
de lá mais para o Sul, de Baleizão
alastra-lhe na cara
pela cara acima
uma mancha avermelhada
rosa de morte
triste sorte
da mulher-menina-espiga
de trigo no coração.
O terceiro
é igual ao primeiro.
Eu sorrio…
Os Alentejanos são todos iguais!
Roupas pesadas o ano inteiro
botas calças gastas jaquetões
pousados nas pedras frias dos portais.
O quarto é franzino.
seco
restolho de trigo
idade indefinida
velho cara de menino
criança que cedo envelheceu
pelo Inverno
gelo
ou pelo Verão
que a sua pele ardeu.
O quinto,
o quinto não fala.
O olhar perde-se no horizonte.
Os lábios trauteiam em surdina
um coro da alma
saudades de um outro monte
e de uma mulher
antes menina.
Sem que eu saiba porquê
apenas porque me apeteceu
ergo a mão para o céu
e para eles aceno.
E no olhar de todos
que em todos vejo sereno
é do Alentejo
toda a saudade o que se lê.
E do fundo da sua alma
irrompem os coros das mondas
fazendo-me sonhar com trigais
com manhãs verdes e calmas
e adormecer nas suas ondas
como o mais feliz dos mortais.
O sexto?
O sexto desapareceu!
Não! O sexto é um pretexto!
O sexto sou eu!
jose murta lourenço
in "AGUARELAS"