Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
EXCERTO DE "HISTÓRIAS DO ARCO-ÍRIS".: VER NÃO É OLHAR!

 

 

O rosto de Maria, já enrugado, deixava adivinhar uma beleza serena e uma firmeza de carácter invulgar. As suas faces eram as de um rosto, algo enigmático, simultaneamente normal e estranho. Algo nele seduzia e atraía. Maria, hoje com 68 anos, havia cegado aos cinquenta. Desde então, embora cega, nunca deixara de acreditar na vida. Conservara dentro de si as cores da Natureza, o azul do céu, o verde do trigo, o amarelo puro do sol de Inverno. Aliás, dentro de Maria existia um arquivo de milhares de cores e  de cambiantes, cada uma delas e cada um deles associados à imagem de algo real vivido no seu passado. Mas a realidade dura e crua é que Maria nunca mais haveria de ver o sol. Cegara completamente. Bem depressa se habituara à ideia embora nunca desistisse de lutar. Sempre com o mesmo entusiasmo de outrora. Apenas a realidade era outra. As circunstâncias é que haviam mudado.

Certo dia, numa das excursões regulares organizadas pelo clube a que pertencia, o das alegres folionas, quis o acaso, que no autocarro onde viajava, ela fosse a única invisual entre as cerca de sessenta excursionistas. Após a primeira etapa do percurso, o autocarro estacionou num largo, próximo de um jardim florido, numa pacata cidade de interior. Mal as portas se abriram, todas as viajantes, em gargalhadas sonoras e alegres, precipitaram-se rapidamente para a rua iniciando uma volta de reconhecimento pelas redondezas. Bem depressa o autocarro, antes cheio, ficou vazio. Pelo contrário, o largo, antes vazio, rapidamente se encheu de uma pequena multidão  de ocasião, e, tal era a algazarra, que os pobres dos pássaros, pouco habituados a tanto gorgolejar de tais aves estranhas, se puseram em debandada anichando-se nas copas das árvores. Assustados, escondiam-se, fugindo espavoridos por tão insólita e inusitada barulheira. Em alvoroço, o grupo das palradoras pôs-se em marcha, em busca de…, a verdade é que ninguém sabia muito bem do que ia à procura. Talvez do habitual naquelas ocasiões, uma igreja, um monumento, umas ruínas, a rua mais importante da cidade onde pudessem fazer umas compras, recordações, artesanato, rendas ou tapetes, um café com bolos que fossem especialidade da região, uns postais ilustrados, se tais existissem, o trivial.

A pressa para chegar ao destino, que nem sabiam qual era, era tal, que quase nem se apercebiam de que andavam tão depressa quanto a máquina da grande metrópole, de onde haviam vindo, e que as tinha ensinado a andar assim, freneticamente. Foi então que uma voz doce se elevou sobre a multidão de excursionistas:

- Que lindas rosas!

Quase de imediato, como que por encanto, fez-se um silêncio sepulcral. Não pela afirmação ouvida. Até correspondia à realidade. As rosas eram mesmo belas. Apenas por quem a proferiu. Maria, a invisual, fora, entre tantas, a única que havia visto aquelas rosas, espantosas, que pela manhã, regadas pela transparência do orvalho, ainda ficavam mais belas. Todas pararam olhando estupefactas a serena beleza daquelas flores de onde  pareciam escorrer lágrimas. O grupo quedou-se em silêncio, os olhos contemplando demoradamente o que Maria havia visto primeiro que todas.

Joana, uma das excursionistas mais faladoras e que era, por assim dizer, a animadora oficial das alegres folionas, perguntou a Maria:

- Como é que tu viste, se não vês, que estavam ali aquelas rosas?

Maria sorriu e tranquilamente respondeu:

- Vocês conservaram os vossos olhos e a vossa visão. Talvez por isso, tantas vezes passam, e não vêem. Eu sou diferente. Eu deixei de ver com os meus olhos mas aprendi a ver com o meu nariz, com os meus ouvidos, com os meus dedos, se quiserem, também, com o meu coração. Eu sei que ver assim é muito mais difícil. É por isso que eu paro mais vezes do que vocês. E como paro, vejo. E digo-vos mais: - Aquelas rosas são vermelhas!

Aqui, foram as dezenas de viajantes do grupo de excursionistas, que sorriram. Fizeram-no com os olhos marejados de lágrimas. E todas disseram que sim. Que eram vermelhas, as rosas.

Aqui para nós, que ninguém nos ouve, confesso-vos uma coisa: É que as rosas não eram vermelhas. Eram brancas. De facto, apenas para a Maria, é que aquelas rosas eram vermelhas. Mas o que interessa isso, se era essa a cor que o seu coração via? Se o passado de Maria estava cheio de rosas, de botões de rosa e de pétalas vermelhas, porque não poderiam ser também vermelhas aquelas rosas? Não fora ela, afinal, a primeira que as vira?

Se encontrarem por aí a Maria, por favor, não lhe digam nada. Deixem-na com a alegria de julgar que eram vermelhas as rosas que, de facto, brancas eram.

 

 

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publicado por jose murta lourenço às 09:49
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
EXCERTO DE "HISTÓRIAS DO ARCO-ÍRIS". A SUAVE LUZ

 

 

Era uma vez um menino...Assim começam todas as histórias. Tornou-se um lugar comum e por isso os escritores o evitam no início dos seus contos. Eu estou-me nas tintas para os escritores que se deixam moldar pela crítica e  estou-me nas tintas para os críticos que procuram condicionar os escritores que se deixam moldar. 

Eu não receio que me acusem de vulgar. Eu sou vulgar. E começo assim: “Era uma vez menino...”, porque traduz a Verdade. Foi mesmo uma vez um menino...

 

O menino assomou à varanda porque o dia estava lindo. O céu azul  podia ver-se por cima do baixo casario da rua. Prédios, altos, nem vê-los. O maior era mesmo o do menino, com dois andares e um anexo sobre o terraço onde também adorava estar, mas de noite, para falar com as estrelas. De dia não. De dia o seu lugar favorito era mesmo a varanda.

Foi num desses cálidos dias ao cair da tardinha que ao menino foi dado a ver algo estranho.

 

Não era uma simples visão, figura ou rosto Era uma Luz, uma Luz suave, uma Luz que resplandecia suavemente por detrás da frincha de uma janela levemente entreaberta.

O menino  fixou a Luz procurando ver o que se escondia por entre os seus contornos, bem no centro do seu halo. E foi então que a viu. Era um rosto. Suave e pálido como malmequeres brancos na planície. Rubras as rosas que lhe pintavam as faces sempre que a Luz parecia adivinhar estar a ser vista.

Então, mais do que malmequeres ou lírios brancos, o rosto que se escondia por entre a Luz parecia ao menino ser um campo de papoilas vermelhas. Daquelas que pintam os quadros naturais nas planícies do Alentejo.

Olhou melhor e vislumbrou por entre a Luz um olhar suplicante; como se aquela Luz não suportasse mais a clausura e estivesse ansiosa por explodir no Universo; e sentiu naquele olhar uma força indómita,  emanando de dentro de si, como se fosse a de uma égua selvagem que jamais alguém consegue dominar, cravar esporas, marcar com ferros, ou domar.

 

E o menino disse baixinho, falando consigo mesmo:” Como eu gostava que aquela Luz que tem dentro de si aquela menina que parece ter dentro de si aquela égua selvagem galopando de crinas ao vento, me acompanhassem sempre!

 

Um dia, a janela fechou-se e o menino deixou de ver a Luz. O tempo seguiu a sua inexorável marcha. Passaram-se anos e anos. O menino fez–se Homem, viveu como todos os Homens vivem,  e a “égua selvagem” correu quiçá por entre os bosques de algum lugar distante na Europa, ou quem sabe, por entre as Amazonas de outro continente nos confins de outros mares, de outros oceanos.

 

Até que um dia...de novo ele viu aquela mesma LUZ...

 

E só então se deu conta de que a LUZ sempre o acompanhara.

 

Ele é que cerrara os olhos para deixar de a ver!

 

 

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