I-
Em Évora
gosto de estar no tempo
sem saber da hora
e de estar na hora
sem cuidar do tempo.
Gosto de vaguear
pela cidade fora
e sem estar por fora
não estar por dentro.
II- A noite Algarvia (de Agosto)
A tarde cai, lenta, devagar
mansamente lá vai o Sol
escorregando no horizonte.
A brisa mal se sente
sussurrando no ouvido da gente
palavras quentes, de amores antigos,
lágrimas de mouras, seios altivos,
bocas sedentas de fontes perdidas
noites de lua-cheia, formas difusas,
sombras da noite confundidas.
Ao longe canta o cuco
a rola responde ao desafio
e um galo senhor de sua capoeira
resmunga qualquer asneira
em língua de galo instruído.
Cai o silêncio.
E o silêncio da tarde que cai
assusta tanto
que ninguém o ousa quebrar.
As folhas da velha alfarrobeira
abanam-se do calor, a medo,
e mal se ouvem no seu agitar
gemendo sibilamente
como que dizendo que a culpa é do vento
se o seu sussurrar se sente.
O Sol já não é mais que bola inchada,
um pouco mais que nada
e a noite em breve o seu manto estenderá.
Abrem-se as portas das lendas encantadas.
Perfilam-se na partida os cavalos alados.
Impacientam-se os cometas de caudas ardentes
e nos curros da noite
já marram os bois de cornos tridentes
e velhos horrendos cofiam os bigodes farfalhentos.
No calor sufocante da noite
quando a hora enfim chegar
o pio do mocho rasgará o ar
anunciando procissões de fantasmas
almas penadas rangendo matracas
côcas marafadas
desfazendo-se em gargalhadas.
E ai de quem ousar desafiar a noite!
Que mil rezas
mil quebrantos
mil pragas
sobre si atrairá.
Se for homem
em sapo se tornará.
Se for moço
cão danado ficará.
Se for velho
em cajado restará
E se for manco
de pronto
em raiz o seu cajado se mudará.
Calem-se!
Fechem vossas bocas
ó mortais assustadiços!
Durmam
que a noite é dos demónios e feitiços.
E amanhã
quando o Sol voltar a nascer
tudo será de novo belo
luminoso
claro
ardentemente quente
tranquilamente azul
pacatamente verde
buliciosamente cosmopolita
encantadoramente barrocal
tragicamente só, na serrania.
…E um novo dia
renasce das entranhas
da estranha noite Algarvia.
I-
Eu sou o todo que nenhuma parte contém.
O transitório que do nada algum surgiu.
O pouco que a pouco e pouco saiu
de um menos pouco que pouco tem.
O todo etéreo e indefinível
mudança de estado de amor latente
suportado por frágil matéria sensível
que torna físico o frágil presente.
Eu sei onde encontro as partes. Não o todo.
E busco uma razão para o não saber.
Caminho para o Infinito a meu modo
atraído por Luz que não consigo ver.
Não consigo ver mas sinto-a num ponto
tão imenso que de imenso se dissipa
no fundo de minha alma onde encontro
o todo que no início do fim fica.
II-
Há um rio de loucura nas minhas veias
em busca de uma foz desconhecida
de águas surgidas das minhas ideias
nascidas nas montanhas da minha vida.
Um dia surgiu a primeira bolha.
Veio de um rio que subterrâneo já corria.
Encontrei um vale e não hesitei na escolha.
Ao ar livre era o meu rio que crescia.
Do meu rio fiz meu um imenso mar
e de tão imenso perdi-lhe a foz.
Inundei-me nas águas em que quis naufragar
e de tanto a procurar perdi de rouca a minha voz.
A minha foz o meu porto onde estão? Quem os viu?
Ninguém? Resta-me correr sem destino
e ser mesmo um peregrino
porque o rio não volta à nascente de onde saiu!
III-
Cubram-se de neve os meus cabelos
e de névoa o meu olhar.
Que encanto poder vê-los
com a réstia de luz que me restar.
Será branca branca a minha cabeça.
Tão branca que branca ficará
sem que no tempo eu envelheça
ou sinta o tempo passar.
E porque há um fogo na minha alma
e um tição na minha lareira
que na ânsia me dá calma
invento da noite alvoradas
acendendo as estrelas apagadas
com centelhas de eterna brincadeira.
Será que eu sou
o que outro alguém já foi
e o corpo onde estou
a outro alguém já pertenceu
e a dor que agora me dói
a outro alguém já doeu?
Será que o meu corpo
é um abrigo que se trespassa
quando a carne apodrece
e a vida essa se desvanece
e o espírito esse passa
para um corpo que se desconhece?
Será que eu sou
apenas o passado do que eu serei
eco do choro que já chorou
no corpo que me acolheu e eu animei?
Ah, fosse eu corpo abrigo de Poeta
que o meu espírito jamais morreria.
Fosse minha voz a palavra certa.
Fosse minha alma a Poesia.
Fosse minha alma a Poesia
Meus versos cânticos imortais.
Que a morte nunca me mataria
mesmo que eu não vivesse mais!
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I-
Eu que sou dois
não chego a ser
um só sequer.
Vagueio entre
o antes e o depois
indefinido
num ponto qualquer.
II-
A ti te escrevo
e o mais difícil é fugir disso.
Porque ao escrever-te me escrevo
e vou olhando por um espelho baço
onde não se reflecte nenhum rosto
nem o teu , nem o meu com que saio à rua
postiço com que sorrio e fico sério
e fico triste
até que o deixo com a roupa que dispo
no regresso
ao sol-posto.
A ti te escrevo
ó ridículo e mesquinho poeta falhado
Que espalhas os teus versos aos quatro ventos
e ninguém te ouve.
A ti te escrevo
pobre, sentimental, angustiado.
A ti, ignorante, rudimentar
de vocabulário castrado.
A ti te escrevo e te lamento e te sofro e me sofro
por te ver sofrer.
A ti te escrevo porque ardes em febre
porque latejas
porque sentes todo o meu ser
como só os grandes poetas sabem sentir
mas porque não tens como eles
a arte de escrever.
A mim te escrevo
ó miserável e vil criatura
estúpido, mentecapto, de sorriso alarve
sob postiça dentadura.
A mim te escrevo
ó besta, cavalgadura, animal.
A mim te escrevo
porque transportas em ti todo o mal
e carregas todas as heranças
da tua congénita loucura.
A mim me escrevo
ó vil engenheiro-de-coisa-nenhuma
mas ainda assim mais engenheiro que tu
poeta do nada.
A mim me escrevo
e escrevendo-te há uma verdade profunda
que se liberta e me liberta
da rotina que me esmaga.
A mim me escrevo e a ti escrevo
e bajulo-me com o eco dos teus elogios
e mergulho nas águas narcisistas
dos teus supostos rios.
A ti te escrevo e o mais difícil é fugir disso.
A mim te escrevo e o mais difícil é sentir isso.
A mim me escrevo e o mais difícil é escrever.
A mim me escrevo e o mais difícil …é viver
Olho-me ao espelho baço onde se reflecte o meu rosto
que não existe.
E não saio à rua e não sorrio e não fico sério…
nem fico triste!
III-
Entre aquilo que eu sou
e aquilo que eu queria ser
há um passo de gigante.
E o caminho por onde vou
leva-me sem me saber
cada vez mais distante.
Quem quis eu ser nunca soube.
Deixei-me ir no tempo
de ser não eu
mas quem pôde
viver com o corpo
e sem alma ir vivendo.
Que astros me guiaram não sei.
Nem que caminhada percorri.
Nunca nesta estrada
reparei
ou na memória retive
o que senti.
Vou vivendo como toda a gente.
Se viver é isto que eu faço.
Não estou morto
nem estou presente
mas vou indo indiferente
ao caminho por onde passo.
Serei pois sombra, silhueta
estúpido animal, cavalgadura
caminhando de olhos vendados
para a meta
e do que eu sou ou serei
nada perdura.
Nada nem ninguém me recordará.
Os dilemas que tenha morrerão comigo.
E o que eu quis ser
outro alguém será
no exacto instante
em que me findo.
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