I-
Eu que sou dois
não chego a ser
um só sequer.
Vagueio entre
o antes e o depois
indefinido
num ponto qualquer.
II-
A ti te escrevo
e o mais difícil é fugir disso.
Porque ao escrever-te me escrevo
e vou olhando por um espelho baço
onde não se reflecte nenhum rosto
nem o teu , nem o meu com que saio à rua
postiço com que sorrio e fico sério
e fico triste
até que o deixo com a roupa que dispo
no regresso
ao sol-posto.
A ti te escrevo
ó ridículo e mesquinho poeta falhado
Que espalhas os teus versos aos quatro ventos
e ninguém te ouve.
A ti te escrevo
pobre, sentimental, angustiado.
A ti, ignorante, rudimentar
de vocabulário castrado.
A ti te escrevo e te lamento e te sofro e me sofro
por te ver sofrer.
A ti te escrevo porque ardes em febre
porque latejas
porque sentes todo o meu ser
como só os grandes poetas sabem sentir
mas porque não tens como eles
a arte de escrever.
A mim te escrevo
ó miserável e vil criatura
estúpido, mentecapto, de sorriso alarve
sob postiça dentadura.
A mim te escrevo
ó besta, cavalgadura, animal.
A mim te escrevo
porque transportas em ti todo o mal
e carregas todas as heranças
da tua congénita loucura.
A mim me escrevo
ó vil engenheiro-de-coisa-nenhuma
mas ainda assim mais engenheiro que tu
poeta do nada.
A mim me escrevo
e escrevendo-te há uma verdade profunda
que se liberta e me liberta
da rotina que me esmaga.
A mim me escrevo e a ti escrevo
e bajulo-me com o eco dos teus elogios
e mergulho nas águas narcisistas
dos teus supostos rios.
A ti te escrevo e o mais difícil é fugir disso.
A mim te escrevo e o mais difícil é sentir isso.
A mim me escrevo e o mais difícil é escrever.
A mim me escrevo e o mais difícil …é viver
Olho-me ao espelho baço onde se reflecte o meu rosto
que não existe.
E não saio à rua e não sorrio e não fico sério…
nem fico triste!
III-
Entre aquilo que eu sou
e aquilo que eu queria ser
há um passo de gigante.
E o caminho por onde vou
leva-me sem me saber
cada vez mais distante.
Quem quis eu ser nunca soube.
Deixei-me ir no tempo
de ser não eu
mas quem pôde
viver com o corpo
e sem alma ir vivendo.
Que astros me guiaram não sei.
Nem que caminhada percorri.
Nunca nesta estrada
reparei
ou na memória retive
o que senti.
Vou vivendo como toda a gente.
Se viver é isto que eu faço.
Não estou morto
nem estou presente
mas vou indo indiferente
ao caminho por onde passo.
Serei pois sombra, silhueta
estúpido animal, cavalgadura
caminhando de olhos vendados
para a meta
e do que eu sou ou serei
nada perdura.
Nada nem ninguém me recordará.
Os dilemas que tenha morrerão comigo.
E o que eu quis ser
outro alguém será
no exacto instante
em que me findo.
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