Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
EXCERTO DE "NA PRIMEIRA PESSOA": A TI TE ESCREVO...

 

 

 

 

I-

Eu que sou dois

não chego a ser

um só sequer.

Vagueio entre

o antes e o depois

indefinido

num ponto qualquer.

 

 

 II-

A ti te escrevo

e o mais difícil é fugir disso.

Porque ao escrever-te me escrevo

e vou olhando por um espelho baço

onde não se reflecte nenhum rosto

nem o teu , nem o meu com que saio à rua

postiço com que sorrio e fico sério

e fico triste

até que o deixo com a roupa que dispo

no regresso

ao sol-posto.

 

A ti te escrevo

ó ridículo e mesquinho poeta falhado

Que espalhas os teus versos aos quatro ventos

e ninguém te ouve.

A ti te escrevo

pobre, sentimental, angustiado.

A ti, ignorante, rudimentar

de vocabulário castrado.

A ti te escrevo e te lamento e te sofro e me sofro

por te ver sofrer.

A ti te escrevo porque ardes em febre

porque latejas

porque sentes todo o meu ser

como só os grandes poetas sabem sentir

mas porque não tens como eles

a arte de escrever.

A mim te escrevo

ó miserável e vil criatura

estúpido, mentecapto, de sorriso alarve

sob postiça dentadura.

A mim te escrevo

ó besta, cavalgadura, animal.

 

A mim te escrevo

porque transportas em ti todo o mal

e carregas todas as heranças

da tua congénita loucura.

A mim me escrevo

ó vil engenheiro-de-coisa-nenhuma

mas ainda assim mais engenheiro que tu

poeta do nada.

A mim me escrevo

e escrevendo-te há uma verdade profunda

que se liberta e me liberta

da rotina que me esmaga.

 

A mim me escrevo e a ti escrevo

e bajulo-me com o eco dos teus elogios

e mergulho nas águas narcisistas

dos teus supostos rios.

A ti te escrevo e o mais difícil é fugir disso.

A mim te escrevo e o mais difícil é sentir isso.

A mim me escrevo e o mais difícil é escrever.

A mim me escrevo e o mais difícil …é viver

Olho-me ao espelho baço onde se reflecte o meu rosto

que não existe.

E não saio à rua e não sorrio e não fico sério…

nem fico triste!

 

 

 

III-

Entre aquilo que eu sou

e aquilo que eu queria ser

há um passo de gigante.

E o caminho por onde vou

leva-me sem me saber

cada vez mais distante.

Quem quis eu ser nunca soube.

Deixei-me ir no tempo

de ser não eu

mas quem pôde

viver com o corpo

e sem alma ir vivendo.

Que astros me guiaram não sei.

Nem que caminhada percorri.

Nunca nesta estrada

reparei

ou na memória retive

o que senti.

Vou vivendo como toda a gente.

Se viver é isto que eu faço.

Não estou morto

nem estou presente

mas vou indo indiferente

ao caminho por onde passo.

 

Serei pois sombra, silhueta

estúpido animal, cavalgadura

caminhando de olhos vendados

para a meta

e do que eu sou ou serei

nada perdura.

Nada nem ninguém me recordará.

Os dilemas que tenha morrerão comigo.

E o que eu quis ser

outro alguém será

no exacto instante

em que me findo.




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publicado por jose murta lourenço às 09:24
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