Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
AS 50 MEDIDAS URGENTES PARA A CRISE

(Do livro "O Poder das Freguesias" editado em 2001, Editorial Escritor )

 

 

Um a um foram tomando a palavra os sucessivos ministros. O da educação propôs-se poupar nos vencimentos do corpo docente, seguindo a linha tradicional, mas com uma profunda inovação: o ministério não aceitaria professores em regime de recibo verde; pelo contrário, seria o governo que lhes pagaria em vales amarelos que poderiam ser trocados por géneros em lojas a criar e a explorar pelos serviços do ministério. Poupar-se-ia também nos auxiliares desde que se tomassem os devidos cuidados no seu recrutamento. Deveriam ser dispensados todos os que possuíssem unicamente dois braços e duas pernas e em seu lugar contratar-se-iam aqueles que os possuíssem, no mínimo, em duplicado.

As próprias escolas deveriam ser racionalizadas duplicando o número de alunos por turma. Bastaria para tal dispor os discentes em duas camadas, uma superior, com os alunos mais leves, e sem problemas de incontinência, e uma outra inferior, com os alunos mais pesados, ou os mais velhos, ou ainda aqueles que fizessem xixi nas calças.

-Então e eu, o que poderei eu fazer?-lamentou-se, desesperado, o ministro da solidariedade e do trabalho.-Como poderei reduzir a despesa se os funcionários públicos insistem que os aumentos ficaram muito aquém  da taxa real de inflação?

Amável olhou com benevolência o pobre do ministro que assim falara. Tinha, sem dúvida alguma, um grande bico-de-obra pela frente. Sugeriu-lhe um pacote de medidas compensatórias como o de lhes fornecer gratuitamente livros de histórias aos quadradinhos e bilhetes para o futebol e o cinema.

-Vou desenvolver essa ideia. Tem pernas para andar-rematou mais descansado o ministro da solidariedade e do trabalho.

O ministro da saúde declarou solenemente que tudo quanto devia fazer para reduzir custos já o havia feito. Nada mais poderia propor.

Amável não gostou da atitude do seu ministro. Irritou-se mesmo, coisa que se pensaria ser impensável. Achou que o ministro não estava a ser colaborante. Como prova de que a razão estava do seu lado, e nem formação médica tinha, sugeriu duas medidas que deveriam ter sido propostas pelo responsável da pasta: as tomografias aos doentes magros deveriam ser feitas aos pares, o que racionalizaria a utilização de equipamentos tão caros; as consultas médicas, por especialidade, poderiam ser feitas por grupos,  vários doentes de cada vez, o que até era recomendado por muitos consagrados especialistas em terapia de grupo, e abriria caminho a que os doentes mais experientes e com intuição para a medicina, e felizmente são muitos, pudessem ajudar na medida das suas capacidades, no tratamento dos doentes mais novos e inexperientes.

O ministro da ciência e da tecnologia prometeu suspender, até que a situação do país melhorasse, as experiências com os satélites nacionais. Durante este período limitar-se-ia o país à observação das estrelas com o mínimo indispensável de observatórios em serviço.

O ministro da justiça ficou responsável por elaborar um estudo estatístico dos presos em regime preventivo de forma a agrupá-los por área de residência. Seriam então encarcerados nas suas moradias mas comeriam as sopas às suas custas, libertando de tal encargo o erário público.

A vantagem do agrupamento por áreas residenciais consistia no facto de um pequeno número de guardas ser capaz de garantir a necessária vigilância à efectiva prisão dos detidos.

Quanto às obras públicas congelar-se-iam as de maior encargo financeiro: a auto-estrada para o Algarve ficaria pelo Alentejo; a travessia de peões na linha-férrea de Coimbra ainda não se realizaria; congelar-se-iam as novas travessias do Tejo e do Douro; e apenas as obras inadiáveis, e de menor custo, casos do TGV e as do aeroporto da Ota, se manteriam activas, e, mesmo assim, apenas em projecto.

O ministro das finanças seguiu o caminho do colega da saúde: bloqueou; e nenhuma medida, para além das que supostamente teria implementado, foi capaz de propor. Amável não gostou e tal como fez no caso da saúde lembrou apenas uma medida não posta em prática pelo ministro das finanças: o imposto de rua, que poderia taxar, por razões ambientais e com fundamentos ecológicos, todos os que, sem qualquer motivo profissional, circulassem pelas estradas e ruas do país.

-E fortemente penalizante para os que exibam visíveis sinais exteriores de flatulência-apressou-se a sugerir o ministro da educação no que foi secundado pelos restantes pares.

Finalmente, o primeiro-ministro, para dar o exemplo, prometeu reduzir as viagens ao estrangeiro, limitando-as ao mínimo indispensável à garantia da representação nacional em eventos de força maior; e, nas próprias viagens nacionais, consoante os percursos, viajaria de comboio, de motorizada, de bicicleta, ou mesmo a pé.

 

 

No final da reunião, produtiva como poucas, haviam sido sistematizadas cinquenta medidas destinadas à redução drástica da despesa pública.

Amável, e bem o merecia, iria retirar-se por uns tempos confiando ao seu ministro das finanças a missão de defender tais medidas no parlamento.

O ministro disse que sim, mas declarou-se cansado, traumatizado por tantos erros de contas que o ultrapassavam, ridicularizado mesmo. Pediu segredo aos seus pares e confessou que mal cumprisse a sua missão se retiraria dedicando-se por inteiro à inadiável formação de reciclagem aritmética.

Amável aceitou a pretensão do ministro e acrescentou:

-Fica acordado que o governo será remodelado no próprio dia em que o senhor ministro das finanças cumprir o honroso dever de defender o indefensável. É imperioso recuperar a confiança perdida. Fica pois decidido que os senhores ministros dos ministérios que não existiram serão substituídos por sua livre vontade.

-Eu também quero sair! Antes que a saúde me ponha doente!-gritou desesperado, quase que chorando, o ministro da pasta maldita.

-Seja feita a sua vontade!-concordou Amável.

Duas semanas depois tudo se cumpriu conforme o acordado; e de novo se reconstituiu o governo presidido por Amável, com a prata, ainda mais cansada, da casa.

 

José Murta Lourenço

 


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