Os cães comem cedilhas quando cantam.
Os pedintes pedem cedilhas aos que pecam.
Os gatos engolem os is quando se irritam.
E dos lobos faz-se vinho quando sem is ululam.
De rugido de leão alterado sai mugido de vaca
sonolenta na pastagem.
O cheiro da noite mistura-se na paisagem
Com o doce das amoras caídas da ponta da língua
efeminada de uma serpente.
Nos hábitos negros, mais negros que a escuridão
Um mocho ancestral é canonizado.
No largo da terra foi enforcado um cavalo selvagem
que roubara outro domesticado.
Pela justiça cega da noite jaz agora relinchado.
Um burro distraído urra sem saber do z.
Outro burro escreve sem saber de quê
e no final assinará apenas como José.
Ainda é cedo para acabar esta história
feita de coincidências que nas palavras
são fartas.
Merece continuar se a tanto me ajudar
a memória de palavras ditas onomatopaicas.
Paro. Pairo no ar o meu pensamento.
Obrigo-o a esvoaçar levitando
da força da gravidade libertando
o meu corpo pesado como se do lastro
se desfizesse.
Ali está ele. Disfarçado de bando de gaivotas.
(Gaivotas em terra? Sinais de tempestade)
Peço ao rico um pouco de grana
E com um s emprestado
O meu pensamento fala com a gaivota que voa
a meu lado.
Numa capoeira fedorenta uma galinha
abre as portas que se fecham.
Numa carreira de tiro muitos carneiros praticam.
Um velho pitosga esqueceu-se da origem
e ficou repelente
e um seu primo deitado na cama
papa moscas e vento.
Um grilo engana-se na gasolina que põe no carburador
e uma rã anura acha finalmente o que não diz
por decoro.
Uma velha cleptomaníaca dá a um cão a fala
e um artista de circo na despedida
enche as bancadas de hienas.
Um papagaio louco nunca mais se cala
e por vezes há grandes saudades de coisas pequenas.
Num fazer de mala… na procura de noites serenas…
Pára José! Pára que estás a delirar!
Está bem Eu paro..
Mas preciso, antes, de um a mudo.
Onde é que eu o fui deixar?
O pior é que, mesmo que o chame, ele não vem.
Também é surdo.
E se o não fosse, de que serviria
se o nada que diz é tudo?
Do chefe de correios da antiga nação
(correio -mor)
eu dispenso a correspondência.
Deixai-me o resto. E o a mudo.
Eu não sei se sou eu que não presto
ou se quem me pôs louco foi este texto.
Dai-me ao menos o a mudo
que do correio -mor já tenho o que queria
para no fim ter a alegria, de encontrar no nada…
… O TUDO!
JOSE MURTA LOURENÇO
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