Era uma vez um menino...Assim começam todas as histórias. Tornou-se um lugar comum e por isso os escritores o evitam no início dos seus contos. Eu estou-me nas tintas para os escritores que se deixam moldar pela crítica e estou-me nas tintas para os críticos que procuram condicionar os escritores que se deixam moldar.
Eu não receio que me acusem de vulgar. Eu sou vulgar. E começo assim: “Era uma vez menino...”, porque traduz a Verdade. Foi mesmo uma vez um menino...
O menino assomou à varanda porque o dia estava lindo. O céu azul podia ver-se por cima do baixo casario da rua. Prédios, altos, nem vê-los. O maior era mesmo o do menino, com dois andares e um anexo sobre o terraço onde também adorava estar, mas de noite, para falar com as estrelas. De dia não. De dia o seu lugar favorito era mesmo a varanda.
Foi num desses cálidos dias ao cair da tardinha que ao menino foi dado a ver algo estranho.
Não era uma simples visão, figura ou rosto Era uma Luz, uma Luz suave, uma Luz que resplandecia suavemente por detrás da frincha de uma janela levemente entreaberta.
O menino fixou a Luz procurando ver o que se escondia por entre os seus contornos, bem no centro do seu halo. E foi então que a viu. Era um rosto. Suave e pálido como malmequeres brancos na planície. Rubras as rosas que lhe pintavam as faces sempre que a Luz parecia adivinhar estar a ser vista.
Então, mais do que malmequeres ou lírios brancos, o rosto que se escondia por entre a Luz parecia ao menino ser um campo de papoilas vermelhas. Daquelas que pintam os quadros naturais nas planícies do Alentejo.
Olhou melhor e vislumbrou por entre a Luz um olhar suplicante; como se aquela Luz não suportasse mais a clausura e estivesse ansiosa por explodir no Universo; e sentiu naquele olhar uma força indómita, emanando de dentro de si, como se fosse a de uma égua selvagem que jamais alguém consegue dominar, cravar esporas, marcar com ferros, ou domar.
E o menino disse baixinho, falando consigo mesmo:” Como eu gostava que aquela Luz que tem dentro de si aquela menina que parece ter dentro de si aquela égua selvagem galopando de crinas ao vento, me acompanhassem sempre!
Um dia, a janela fechou-se e o menino deixou de ver a Luz. O tempo seguiu a sua inexorável marcha. Passaram-se anos e anos. O menino fez–se Homem, viveu como todos os Homens vivem, e a “égua selvagem” correu quiçá por entre os bosques de algum lugar distante na Europa, ou quem sabe, por entre as Amazonas de outro continente nos confins de outros mares, de outros oceanos.
Até que um dia...de novo ele viu aquela mesma LUZ...
E só então se deu conta de que a LUZ sempre o acompanhara.
Ele é que cerrara os olhos para deixar de a ver!
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