O rosto de Maria, já enrugado, deixava adivinhar uma beleza serena e uma firmeza de carácter invulgar. As suas faces eram as de um rosto, algo enigmático, simultaneamente normal e estranho. Algo nele seduzia e atraía. Maria, hoje com 68 anos, havia cegado aos cinquenta. Desde então, embora cega, nunca deixara de acreditar na vida. Conservara dentro de si as cores da Natureza, o azul do céu, o verde do trigo, o amarelo puro do sol de Inverno. Aliás, dentro de Maria existia um arquivo de milhares de cores e de cambiantes, cada uma delas e cada um deles associados à imagem de algo real vivido no seu passado. Mas a realidade dura e crua é que Maria nunca mais haveria de ver o sol. Cegara completamente. Bem depressa se habituara à ideia embora nunca desistisse de lutar. Sempre com o mesmo entusiasmo de outrora. Apenas a realidade era outra. As circunstâncias é que haviam mudado.
Certo dia, numa das excursões regulares organizadas pelo clube a que pertencia, o das alegres folionas, quis o acaso, que no autocarro onde viajava, ela fosse a única invisual entre as cerca de sessenta excursionistas. Após a primeira etapa do percurso, o autocarro estacionou num largo, próximo de um jardim florido, numa pacata cidade de interior. Mal as portas se abriram, todas as viajantes, em gargalhadas sonoras e alegres, precipitaram-se rapidamente para a rua iniciando uma volta de reconhecimento pelas redondezas. Bem depressa o autocarro, antes cheio, ficou vazio. Pelo contrário, o largo, antes vazio, rapidamente se encheu de uma pequena multidão de ocasião, e, tal era a algazarra, que os pobres dos pássaros, pouco habituados a tanto gorgolejar de tais aves estranhas, se puseram em debandada anichando-se nas copas das árvores. Assustados, escondiam-se, fugindo espavoridos por tão insólita e inusitada barulheira. Em alvoroço, o grupo das palradoras pôs-se em marcha, em busca de…, a verdade é que ninguém sabia muito bem do que ia à procura. Talvez do habitual naquelas ocasiões, uma igreja, um monumento, umas ruínas, a rua mais importante da cidade onde pudessem fazer umas compras, recordações, artesanato, rendas ou tapetes, um café com bolos que fossem especialidade da região, uns postais ilustrados, se tais existissem, o trivial.
A pressa para chegar ao destino, que nem sabiam qual era, era tal, que quase nem se apercebiam de que andavam tão depressa quanto a máquina da grande metrópole, de onde haviam vindo, e que as tinha ensinado a andar assim, freneticamente. Foi então que uma voz doce se elevou sobre a multidão de excursionistas:
- Que lindas rosas!
Quase de imediato, como que por encanto, fez-se um silêncio sepulcral. Não pela afirmação ouvida. Até correspondia à realidade. As rosas eram mesmo belas. Apenas por quem a proferiu. Maria, a invisual, fora, entre tantas, a única que havia visto aquelas rosas, espantosas, que pela manhã, regadas pela transparência do orvalho, ainda ficavam mais belas. Todas pararam olhando estupefactas a serena beleza daquelas flores de onde pareciam escorrer lágrimas. O grupo quedou-se em silêncio, os olhos contemplando demoradamente o que Maria havia visto primeiro que todas.
Joana, uma das excursionistas mais faladoras e que era, por assim dizer, a animadora oficial das alegres folionas, perguntou a Maria:
- Como é que tu viste, se não vês, que estavam ali aquelas rosas?
Maria sorriu e tranquilamente respondeu:
- Vocês conservaram os vossos olhos e a vossa visão. Talvez por isso, tantas vezes passam, e não vêem. Eu sou diferente. Eu deixei de ver com os meus olhos mas aprendi a ver com o meu nariz, com os meus ouvidos, com os meus dedos, se quiserem, também, com o meu coração. Eu sei que ver assim é muito mais difícil. É por isso que eu paro mais vezes do que vocês. E como paro, vejo. E digo-vos mais: - Aquelas rosas são vermelhas!
Aqui, foram as dezenas de viajantes do grupo de excursionistas, que sorriram. Fizeram-no com os olhos marejados de lágrimas. E todas disseram que sim. Que eram vermelhas, as rosas.
Aqui para nós, que ninguém nos ouve, confesso-vos uma coisa: É que as rosas não eram vermelhas. Eram brancas. De facto, apenas para a Maria, é que aquelas rosas eram vermelhas. Mas o que interessa isso, se era essa a cor que o seu coração via? Se o passado de Maria estava cheio de rosas, de botões de rosa e de pétalas vermelhas, porque não poderiam ser também vermelhas aquelas rosas? Não fora ela, afinal, a primeira que as vira?
Se encontrarem por aí a Maria, por favor, não lhe digam nada. Deixem-na com a alegria de julgar que eram vermelhas as rosas que, de facto, brancas eram.
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