I
Em Évora
gosto de estar no tempo
sem saber da hora
e de estar na hora
sem cuidar do tempo.
Gosto de vaguear
pela cidade fora
e sem estar por fora
não estar por dentro.

II
A calma placidez
do Alentejo sonolento
onde os relógios
bocejam devagar
e os velhos dormitam
lengalengas
no escoar do tempo.

III
O CAFÉ ARCADA
Silênciosos
Nervosos e imóveis
suspendem-se por fios
instrumentos
nos corredores do tempo.
Um violoncelo à esquerda
nas mãos delicadas
de um gerente de agência
funerária.
As pontas da camisa branca
recurvam-se na espera imaginária
de comboio pronto a partir
de estação que não existe.
A gravata é preta e triste
num olhar de expressão perdida
e solitária.
Um trio de clarinetes sufoca de impaciência
os sons presos na contida incontinência
de um sopro anichado em bochechas.
Um piano tímido vira envergonhado
as costas ao público ausente.
Uma cabeça branca toca o que ninguém
jamais saberá o que é.
Guitarra ou violeta? Banjo ou oboé?
No fundo do painel uma trompete espreita
em bicos de pés
E a seu lado, uma bateria aguarda a vez.
Há uma tourada que nunca mais começa.
O toureiro lida com artes de guerreiro
efeminado
o bicho que na arena jaz extenuado.
Duas caras de traços indefinivelmente
carrancudos
seguram trompetes de sons mudos
E elevando-se sobre tudo e sobre todos
cortando a distância desde o fundo
da fotografia amarelecida no tempo
um violino derrama a melodia
de um choro distante e plangente.
Viva…
Apenas a orquestra parada, morta
mas mais viva que o vazio do Café Arcada
onde ouvi a sua orquestra não tocar
como a ouviu alguém ontem
com o Arcada cheio de gente a abarrotar.
Talvez por isso se cale hoje a orquestra…
Ou só toque para as mesas de físico vazias
quando os fantasmas vierem para a festa
ausentes os vivos de almas insensíveis e frias.

josé murta lourenço
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