Normalmente a maioria dos utilizadores de edifícios com ar condicionado conhece dois modos de funcionamento:
1. Se o tempo está frio, no Inverno, o controlo é "tudo para cima";
2. Se o tempo está quente, no Verão, o controlo é "tudo para baixo".
A prática anterior não conduz ao conforto. Pelo contrário é causa frequente de "alergias" caracterizadas por "secura" na garganta e no nariz. O utilizador queixa-se então do ar condicionado e nem se apercebe que foi ele que ao seleccionar uma temperatura interior de arrefecimento muito baixa acabou por criar condições para o seu desconforto. Na realidade, no Verão, a humidade relativa no nosso clima é bastante baixa. Ora, quando se arrefece em excesso, o que sucede? O ar "seca" o que implica por sua vez maior "secura" nas mucosas que estão em contacto, pelo acto de respirar, com o ar ambiente. Além disso o consumo de energia aumenta. É uma "secura" de dinheiro gasto sem acréscimo de conforto. Antes pelo contrário.
Bem mais inteligente seria fazer como os Japoneses: reduzir o número e a espessura das peças de roupa.
Há algum tempo um colega de uma empresa de ar condicionado perguntou-me se nós teríamos, enquanto projectistas, ideia do acréscimo de consumo de energia caso a temperatura interior fosse regulada para 24 º C em lugar de 25 ºC. Curiosamente, alguns anos antes, eu fui o responsável pelo cumprimento do Plano de Racionalização de Consumo de Energia numa das mais prestigiadas unidades hoteleiras de Lisboa. Tive então oportunidade de conversar com engenheiros da cadeia internacional que explorava o hotel. Recordo de me terem dito que o acréscimo de 1ºC conduziria o consumo do hotel a um acréscimo de cerca de 20% no período de arrefecimento.
Esta estimativa, um pouco exagerada, quem sabe se por razões pedagógicas ou pelo facto de então(há mais de 20 anos) a eficiência dos equipamentos e as técnicas de isolamento térmico e de arrefecimento gratuito não estarem tão aperfeiçoadas como hoje, tem contudo um peso enorme como se poderá constatar a seguir.
De facto, um pouco por curiosidade, e também para poder ser útil a quem me pusera tal problema, resolvi utilizar as simulações dinâminas efectuadas a vários tipos de edifícios no âmbito das minhas funções na Electroconsul, considerando desta vez dois "set-points" distintos: 24ºC e 25ºC. O quadro seguinte sistematiza os resultados obtidos:
Tipo de edifício
variação de potência
variação de energia
Serviços
+1%
+10%
Banco
+5%
+12%
Health club
+0,3%
+2,5% *
Clínica hospitalar
+3,9%
+11,7%
Residencial
+3,2%
+10,3%
Hotel
+3%
+8,5%
* Um health club, pela sua actividade, possui elevada carga interna todo o ano, o que permite antever que boa parte da carga de arrefecimento possa ser removida de forma gratuita (free-cooling)
Sem querer aprofundar as diferenças de comportamento entre alguns edifícios constata-se que em regra um simples grau a menos implica um acréscimo de consumo de energia e por consequência de custos acima dos 10%
Brevemente voltarei a este tema para ver o que se passa na situação de aquecimento (Inverno).
José Murta Lourenço
Engenheiro de energia e sistemas de potência
especialista de climatização pela Ordem dos Engenheiros
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